sábado, janeiro 15, 2011

Combustível

A tal confusão transforma tudo num mosaico sem lógica
A cor que se une a outra e forma a arte resolveu cair
O espaço em massa crua endurecida tomou seu lugar
Permanentemente enquanto o for

Encaixa-se outro ladrilho e cria-se novas conexões
Nem sempre parecidas e definitivamente nunca iguais
O que se foi larga sua lacuna sem conteúdo ou alma

Sobram restos
Pequenos pedaços rotos do ladrilho permanecem no muro
Pequenos pedaços firmes do muro são levados por ele
O corrompido é irretornável
O novo se faz necessário

Não se perde o não tido.
Eu fui o objeto, mas perdi-me no labirinto dos sentimentos sem razão.

terça-feira, dezembro 28, 2010

Etéreo

O sofrer, como tudo, perde o próprio sentido quando é percebido. A percepção tem a capacidade de tornar tudo sutil. Ou infantil. (Infantil?)
Do enorme ao banal, essa é a propriedade.

No decorrer da consciência e da falta dela, temos criado mundos complexos. Tão complexos que não compreendemos nossa própria criação. A criatura tem garras.

Esquecer o que, quando não há o que lembrar?

Existir é muito abstrato.

quarta-feira, dezembro 01, 2010

Desânimo (ou ânimo abstruso)

Sou medíocre no que faço de melhor, por isso minha evolução deixa de sê-la.
Vira algo que é persistência
(que é insistência
que é paciência
que é excessiva)
de tentar agir quando se é a imagem da inércia.

Coberto de fuligem e pó de engrenagem, não sigo adiante por estar imobilizado.
Todo núcleo está tão compactado dentro dessa crosta que o superficial imediato acaba por se tornar permanente.

Nesse egoísmo mútuo e imposto de mim comigo mesmo, não há o social dos sentidos – a fome de mostrar ao mundo.
O que tem é o sentir
(e nele a falha
e nela a negatividade
que se excede por nada)
e só isso transborda em mim.

terça-feira, junho 22, 2010

Mergulho

Foi julgado do modo mais justo e selvagem que tinha ao alcance.
Ainda assim, o último desejo foi realizado: teria direito aos seus óculos de mergulho.
Amarraram uma pedra em seu pé direito e foi arremessado ao mar.
Assim, com uma pedra e um par de óculos. A roupa só sujaria o deserto deles.

Eles sabem ser cuidadosos.

O orgulho nunca o permitiria morrer afogado, então decidiu assistir todo
o caminho
até o
fundo.

A beleza vista não condizia com sua condição. Ou sim.
Era praticamente um descobridor, quase esqueceu a morte
próxima e óbvia e irrecusável e
inescapável.

Toda a vista cliché não combinava com sua fuga do cliché da vida morte afogada.
Mas era bonito. Mais que sua morte vida inteira.
Não que haja comparação entre um e outro.

A pressão foi chegando, pressionando seu tórax, mas seu fôlego e força eram incríveis.
A pressão foi chegando, pressionando seus olhos.
A pressão foi chegando, pressionando seu crânio.
A pressão foi chegando, pressionando seus ossos.
A pressão foi chegando, pressionando.

A pressão foi chegando, causando dor.
Estalos.
Estalos. Estalos.

terça-feira, maio 18, 2010

Efeito

Angústia. Melancolia.
Negativas que não.

Chegam suavemente em teus pensamentos e te fazem companhia.
As falhas são seu mar, e são navegadas em gôndolas elegantes e sutis.
Teus planos, feitos ou não, falham. Tuas atitudes, tentativas, rascunhos...
Tudo falha, pensado ou manifestado, em todos os planos possíveis.
A perfeição inexiste e as possibilidades são infinitas.
A certeza fixa é que mais de uma guia à falha. E essa, àquelas.

Quando inavegável por excesso de embarcações, a Mediocridade acena.
E mesmo quando ela é sua amiga íntima, ainda há chances.

Quem não se deleita na prazerosa dor criativa, a nega.
E ela sabe retribuir.

quinta-feira, abril 15, 2010

Otimidade

A melhoria nem sempre importa, a qualidade não se aprofunda.
O mais fácil, simples, rápido. O mais corrido.

A diluição exagerada e efetiva em prol da maioria. A contaminação.

A dificuldade em obter disciplina se equivale ao inverso do nível de heroísmo de saber lutar consigo.

O aclive é extraordinário, o declive é o padrão.

sábado, novembro 28, 2009

Fragilidade

Felicidade, essa é a palavra.
Mas em sua titânica vastidão não cabe um pequeno texto sobre nada.

Estou insatisfeito como já estive, mas o que me incomoda é esse contexto que se confunde com meu cotidiano.
Estou incomodado com o alheio que se alocou em níveis profundos de irritação, e o que me tranquiliza é a insignificante ou inexistente crença no tempo.
Me irrita, sim, fatos que me influem quando eu deveria me ausentar e largar às moscas o que pertence a elas.
Decepção, desgosto, desespero.

Felicidade. Essa é a palavra.
Tão absurdamente frágil em seu objeto quanto o tamanho do seu campo de abrangência.

sábado, setembro 12, 2009

Outrora Inebriante

Indireta é algo tão inútil, bobo, covarde.

Se quer saber se algo é inocente ou intencional, pergunte diretamente.
Mantenha seus assuntos internos, internos. Divulgá-los aos ventos enquanto só dois ou três riem é intolerável, ridículo, babaca.

Enquanto isso, fique com minha indiferença.

E agradeça, poderia usar outras maneiras mais intragáveis que essa.

quarta-feira, setembro 09, 2009

Memento cliché

Vestida da cor que os olhos lhe derem, se porta como dama eterna da verdade absoluta, mas é só de nuvem de questões que não aprendeu a ser céu aberto.

Esconde-se em redoma de vidro, se fragiliza isolada da liberdade em falsa segurança - e parece gostar da ilusão de ter um mundo.

Se tudo lhe é prejudicial, que lhe venha a ferida que ensina. Seu erro é fatal, mas você não erra em sua perfeição definida.

O culpado é seu escravo que não se vê como senhor.

domingo, julho 26, 2009

Limite imposto

Cidade dos muros altos e espinhos intimidadores, dos executivos e mendigos imundos, de quem são seus conceitos?

O essencial é social, a mistura gera pressão e o rendimento se transforma em banalização.

Pedaço de biosfera urbana que sou - dizem-me humano - desfaço meu DNA em solução alcalina e peço que me suportem até o fim.

sábado, maio 02, 2009

Frívolo

Me drene.
Roube o que há de espesso e expresso,
O que sobrou de líquido e espírito,
Mas não leve o meu vazio.

Me peça.
Alguns favores e outros mais,
Fechaduras, cofres, carros-fortes,
Mas as chaves eu não entrego.

Me note.
Não sou elogios e elegias distorcidas,
Sou reta distorção.

Não me veja.
Pela matéria reflito o que não quero,
E o sensível é o que se perde.

quinta-feira, abril 09, 2009

Inconsistência

Meu corpo, máquina perfeita e frágil, funciona melhor que a desordem da minha mente e é ainda controlado por ela. Todos esses movimentos descontrolados e organizados se mostram mais próximos do pensamento do que a chamada racionalidade. Mas é exatamente essa essência automática que eu nego para mim.

Prefiro contrariar os movimentos cotidianos e idênticos aos da maioria que acontecem internamente e aceitar o caos como patamar padrão. No entanto, essa negação é inconsistente, é como algo mecânico querendo ser elétrico.

Essa inconsistência é logicamente ridícula, mas eu não sigo essa lógica genial.

A mim parece plausível.

quinta-feira, janeiro 08, 2009

Chamam-te Olhos

Minha diminuta importância diante de tudo que me circula, mantém-me tão limitado quanto uma tira vermelha em um pacote de bolachas. Se me puxam, abre ao resto. Se me mantém, apodrece intacto. O que seria pior?

Presença sequer notada na multidão - e sem motivo para ser - que vê a mesma com olhos assustados escondidos atrás da carne que envolve a face externa, que demonstra, com algum sucesso, o que é preferido pelos transeúntes. Ou o inverso, ou alguma terceira opção.

E a distância entre tudo e eu envolve-se do destilado vazio vacuoso e estufa-se de confortável e macia coisa nenhuma, como se todas as coisas fossem importantes demais para se aproximarem. Porém essa sensação de repulsa que nunca me deram, e sempre apliquei como presente, corre no âmago da minha auto-estima deturpada por um mundo que nunca teve a intenção de fazer-me mal. Quem é pior?

É então visão, que de tão interna nomeia-se visceral, regada por sangue e gás e excretas em excesso recebidas desmedida e desfiltradamente, que eu digo com algum orgulho: minha.

sexta-feira, dezembro 19, 2008

Regiane, 20 anos

O post a seguir é baseado em fatos reais ocorridos no dia 07 de dezembro de 2008.

Cozinha, fome.
Algum grunhido vindo do portão, cachorros latem.
Verificação de praxe: "Não deve ser nada."

Eis que surge, no meio do meu quintal, um ser. Um ser digno de medo, mas a defesa do patrimônio da minha família sôou mais alto.

"O que é isso, caralho!?", seguido de um "Me ajuda, moço."

Aproximei-me, notei sangue seco na careta quase natural daquele monstro. Aquilo virou de costas fazendo algo como um "tsc" e levantando a mão como quem demonstra indignação. Quem deveria estar indignado até então?

Camisa larga e grande assim como a bermuda surrada. Blusa servindo para limpar o sangue, enrolada.

Sentou no chão, apoiou as costas no muro. Novamente me aproximo, inseguro: "O que aconteceu, cara?"

"Sou menina, moço."

O bicho, meu Deus, era uma mulher.

Foi com amigos a Nazaré, não quis dar e levou pé (e mão também). Estavam em três homens e quatro garotas. Aconteceu o mesmo com uma segunda, mas morava mais perto e se arranjou. Não me pergunte porque não a acompanhou.

"Me deixaram perto daquele bosque* alí", disse mais tarde. Veio andando e pedindo ajuda. Nada. Achou uma casa aberta, oferecendo entrada. No desespero, entrou calada.

Chamei meu amigo Rafael, que prestou ajuda (tanto a mim quanto a ela). Minha prima passou na rua, viu e estranhou, entrou e perguntou o que houve.

Após alguma enrolação, ela lavou o rosto no tanque. Fedia pinga. Enquanto a vigiavam, eu me arrumava para levá-la ao ponto de ônibus. "Me deixando no metrô eu já consigo me virar". Deixando coisas de valor em casa, tranquei o portão e descemos a avenida. Perguntas simples pelo caminho para conhecer melhor a intrometida. Mora(va) em São Domingos/SP. Disse que tinha que ir até a estação Jabaquara, mas deve ter confundido com Barra Funda.

Queria ir até o metrô Armênia, mas o ponto é mais longe e mais vazio. Decidimos colocá-la no ônibus para o Tucuruvi, mesma linha, sem problemas. Chegando lá, mais algumas perguntas e silêncio. Sentou de novo no chão.

"Tem certeza que esse ônibus passa aqui?"
[...]
"Acho que não passa não."
[...]
"Regiane, 20 anos."
[...]
"Tá demorando muito."
[...]

Levanta, faz o mesmo gesto de indignação já feito antes e movimenta a boca enquanto o trânsito come o som. Foi andando para o lado contrário.
Eu e meu amigo desistimos dela e voltamos para casa.


E então o Gran Finale: o ônibus passou logo depois que atravessamos a avenida.

______________________________
*aka Calipau (Vila Fátima - Guarulhos)

domingo, julho 27, 2008

Crosta

Justificativas são insensatas, insensíveis e inumanas.
Qualquer derivado do radical just- tem as mesmas características.
Ser humano é ser individual, é dividir-se somente em Si-mesmo e Mundo. Essa é a ordem natural das coisas.

Estou bebendo de meu próprio sono, e tem teor alcoólico. Mas nem por isso perdi a consciência. Infelizmente.

terça-feira, julho 22, 2008

Heaven or Hell?

Ao entrar num túnel, geralmente você imagina o que estará do outro lado. Mas quando esse final é incerto é um risco que você pode ter, ou não.

A luz pode ser vista, mas a distância é incalculável. Desde que as conseqüências sejam assumidas, continue em frente. Entretanto o imprevisto sempre está por perto e os planos podem mudar completamente.

Toda incerteza exige um desafio.

sábado, julho 05, 2008

Mensonge

Se algo é individual, que continue a ser assim.
Confiança é raridade que deve ser compartilhada consigo mesmo; ao sair de sua boca passa a ser do mundo e o mundo não tem noção ou limites.
O mundo não entende a redoma interna que são seus pensamentos, tudo o que sabe são histórias contadas e julgamentos que ele mesmo faz.

Julgamentos são sempre incompletos;
Opiniões devem ser mantidas;
Explicitude só em pornô.

domingo, junho 29, 2008

Fim de Domingo

O dia amanhece e ruma ao crepúsculo. E vem a noite e a lua.
Ontem acabou uma semana e o descanso tornou-se patológico.
Hoje acabou o humor, o sorriso desmancha em desânimo.
Amanhã é mais um dia de outros seis que virão.

Arraste-se, mas vá em frente.

quinta-feira, junho 26, 2008

Atrás do vidro da porta

Distorção, repetição, confusão.
Desconfiança, insegurança, uma sombra!
Questionamento, análise, indução ao negativismo;
Ascender, acender, abrir.

A realidade é mais plana do que se imagina. 

sexta-feira, junho 13, 2008

A Negatividade Além do Mundo.

E foi a favor de todo minuto desperdiçado que tentei por na prensa uma luz; luzes não são comprimidas. Não assim.

Inegavelmente um universo contém o seu inverso.
Não há macro, não há micro. O que há é o que se fala, além disso é especulação.
E no fim, nada resta senão o fim. Recomeços não existem, nada começa de novo: simplesmente começa um novo.
Não há pedidos nem desejos. Não há o haver.

A compressão periódica do tempo físico volta a atacar.